Entrevista destaca sinais de alerta e importância dos exames durante o Novembro Diabetes Azul

Foto: Arquivo Pessoal
O mês de novembro se tornou um importante marco para a conscientização sobre o diabetes, graças ao movimento conhecido como Novembro Diabetes Azul. A iniciativa surgiu como uma extensão do tradicional “Novembro Azul”, originalmente voltado à saúde do homem e à prevenção do câncer de próstata, mas que passou a englobar também a mobilização em torno do Dia Mundial do Diabetes, celebrado em 14 de novembro.
A escolha da data não é por acaso: ela foi instituída em 1991 pela Federação Internacional de Diabetes (IDF) e pela Organização Mundial da Saúde (OMS), em homenagem ao nascimento de Frederick Banting, um dos descobridores da insulina.
No Brasil, o movimento ganhou força com o apoio da Sociedade Brasileira de Diabetes (SBD), que tem ampliado as ações educativas e de conscientização ao longo do mês. O objetivo é alertar a população sobre a prevenção, o diagnóstico precoce e o tratamento adequado do diabetes, aproveitando o alcance e o engajamento já consolidados pela campanha Novembro Azul.
Mais do que uma questão médica, o diabetes é um desafio social que exige informação e mudança de hábitos. Muitos brasileiros ainda desconhecem que convivem com a doença, o que aumenta os riscos de complicações graves, como problemas cardíacos, renais e visuais. De acordo com o Ministério da Saúde, mais de 16 milhões de pessoas vivem com diabetes no país, número que cresce a cada ano, especialmente entre os adultos com estilo de vida sedentário e alimentação desequilibrada.
O Extra conversou com dra. Maria Augusta Karas Zella, endocrinologista/metabologista e professora de Semiologia e Endocrinologia da Faculdade Evangélica Mackenzie Paraná (FEMPAR) (CRM: 14264-PR | RQE: 7630) que falou quais são os tipos e diferenças da doença, a relação direta entre a genética e a importância dos hábitos de vida.
Extra – Doutora como a senhora define a diabetes e quais são as principais diferenças entre os tipos 1 e 2?
Maria Augusta – Diabetes é uma doença crônica que cursa com nível aumentado do açúcar (glicemia) no sangue. Existem mais de 50 tipos de diabetes, mas classificamos em diabetes tipo 1, diabetes tipo 2, diabetes gestacional e outros tipos de diabetes.
O diabetes tipo 1, acomete principalmente as crianças e os adultos jovens, mas em torno de 19% dos casos podem ser vistos em pacientes acima de 60 anos de idade. Sua principal característica é a autoimunidade e a necessidade precoce da reposição da insulina. O Diabetes tipo 2, doença mais frequente no adulto e, infelizmente, cada vez mais frequente nas crianças é caracterizado por resistência ou piora da ação da insulina. Geralmente, com histórico familiar, associado a vários fatores de risco como obesidade, síndrome dos ovários policísticos, idade acima de 35 anos, diabetes gestacional prévio, histórico de macrossomia fetal (partos com bebês acima de 4 kg), sedentarismo, hipertensão arterial, aumento do triglicerídeos no sangue e diminuição do HDL colesterol.
Extra – Quais fatores mais contribuem para o aumento dos casos de diabetes no Brasil nos últimos anos?
Maria Augusta – Não só no Brasil, mas em todo o mundo, o aumento de peso, sedentarismo e hábitos alimentares errados têm contribuído para maior incidência do diabetes tipo 2. Já no Diabetes tipo 1, a agressão das células beta produtoras de insulina por fator ambiental (sobretudo, infecções virais) em indivíduos geneticamente suscetíveis não o torna uma doença passível de prevenção até o momento.
Extra – Existe uma relação direta entre genética e estilo de vida no surgimento da doença?
Maria Augusta – Essa relação é mais vista e é considerada um fator de risco no Diabetes tipo 2. Mas precisamos lembrar que aproximadamente 2% dos pacientes com diabetes tipo 1 tem histórico familiar.
Extra – A senhora acredita que a rotina moderna como alimentação inadequada, estresse e sedentarismo tem sido um gatilho importante?
Maria Augusta – Sim, principalmente no diabetes tipo 2.
Extra – Quais sinais e sintomas devem servir de alerta para que o paciente procure um endocrinologista?
Maria Augusta – Na maioria dos casos, o diabetes tipo 2 apresenta poucos sintomas e muitas vezes sua apresentação clínica acontece pela complicação crônica da doença como durante o infarto do coração, acidente isquêmico cerebral, doença arterial periférica com uma ferida de membros inferiores de difícil cicatrização, alteração visual. Entretanto, o diabetes tipo 1 tem sua apresentação de forma dramática com perda de peso rápida sem intenção de perder associada a aumento da frequência urinária (poliúria), aumento da sede (polidipsia), aumento da fome (polifagia) e culminando com um quadro clínico chamado de cetoacidose diabética que associa além desses sintomas, dor e desconforto abdominal, hálito de maçã podre (hálito cetônico), respiração rápida, desidratação, podendo levar a alteração do nível de consciência e coma.
Extra – Com que frequência é indicado realizar exames para medir a glicemia e prevenir complicações?
Maria Augusta – É preconizado rastreamento do Diabetes tipo 2 a partir dos 35 anos. Entretanto, quando os sintomas da doença estão presentes ou suas complicações é autorizado realizar a triagem. No diagnóstico do Diabetes tipo 2 podemos utilizar o questionário validado para o português FINDRISK, que avalia e é composto por várias questões sobre histórico familiar, hábitos de atividade física e alimentares e medidas antropométricas como IMC (peso/altura²), medida da cintura abdominal. Atualmente, faz parte da diretriz de rastreio do diabetes da Sociedade Brasileira de Diabetes. O rastreamento para o diabetes tipo 1, com dosagem de anticorpos contra a célula beta, não é feito de rotina, entretanto, na avaliação de famílias com diabetes tipo 1, pode ser realizado.
Extra – A diabetes tipo 2 pode ser evitada com mudanças no estilo de vida? Quais hábitos são mais eficazes na prevenção?
Maria Augusta – O nosso estilo de vida tem impacto no desencadear do diabetes tipo 2 e, atualmente, um dos focos do tratamento é o controle do peso corporal. Sabemos que a obesidade está relacionada à piora do controle da glicemia e a maior mortalidade. Por outro lado, redução do peso corporal em pessoas com obesidade ou sobrepeso reduz a incidência de complicações, ajuda no controle da glicemia e aumenta a chance de remissão da doença. Na prevenção é necessário foco na alimentação saudável, atividade física regular, diminuição do tempo sentado, controle do peso corporal.
Extra – Ainda há desinformação sobre o diagnóstico precoce? O que a senhora observa na prática clínica?
Maria Augusta – Sim, infelizmente não herdamos apenas bens dos nossos familiares, ser familiar de um paciente com diabetes tipo 2 nos alerta para essa doença e reforça a necessidade de atitudes saudáveis no nosso dia a dia. Já em relação ao diabetes tipo 1, observamos que muitos diagnósticos poderiam ser antecipados pela medida da glicemia capilar na emergência quando a manifestação inicial é dor abdominal ainda sem cetoacidose.
Extra – Quais são as principais opções de tratamento disponíveis atualmente e como é feita a escolha da melhor estratégia para cada paciente?
Maria Augusta – No tratamento do diabetes tipo 2 muitas medicações podem ser utilizadas, dentro de um raciocínio clínico baseado em evidência científica. O médico na prescrição precisa avaliar o risco cardiovascular, peso corporal e presença de doença renal para fazer as associações de medicações para o paciente com diabetes.
No tratamento do diabetes tipo 1, fazemos a aplicação da insulina, mimetizando nossa secreção de insulina, geralmente com 2 tipos de insulina, uma com ação mais prolongada que manterá a glicemia no acordar e entre as refeições controladas e uma insulina mais rápida em cada refeição, para cobrir a ingesta do alimento no horário e para corrigir os picos de glicemia mais altas.
Extra – O uso de insulina ainda gera medo em muitos pacientes. Como a senhora orienta sobre sua importância e segurança?
Maria Augusta – A insulina mudou a sobrevida da população com diabetes tipo 1 e é uma opção com indicação clínica adequada no diabetes tipo 2 em tempos de doença ou quando entram em falência por diminuição da produção de insulina. Muitas vezes, ela entra de modo temporário. Outras vezes, será usada como reposição pela falta de produção. Os pacientes muitas vezes ficam amedrontados com a prescrição e acham que não vão conseguir dar conta de todo o aprendizado que envolve a insulinização. Com os dias e a sensação de bem-estar e retorno da saúde essa história melhora. Nessa fase é muito importante o acolhimento da equipe multidisciplinar que envolve o endocrinologista, nutricionista, enfermagem, educador físico e psicólogo.
Extra – Qual é o papel da alimentação equilibrada e da prática regular de exercícios físicos no controle da doença?
Maria Augusta – É a base do tratamento independente de quantos anos a doença está instalada. São auxiliares no controle da glicemia, triglicerídeos, pressão arterial e peso corporal.
Extra – A tecnologia como sensores contínuos de glicose e bombas de insulina tem revolucionado o tratamento?
Maria Augusta – São facilitadores no tratamento. Infelizmente, o custo dificulta o acesso para muitos pacientes.
Extra – Quais complicações podem surgir quando a diabetes não é tratada corretamente?
Maria Augusta – O diabetes ocasiona lesões no nosso endotélio comprometendo pequenos e grandes vasos. Nesse mecanismo fisiopatológico encontramos as complicações oculares, renais, neuropáticas e vasculares da doença. Essas complicações podem ocasionar cegueira, insuficiência renal, neuropatias, infarto agudo do miocárdio e amputações de membros.
Extra – O diagnóstico costuma impactar o emocional do paciente? Como o endocrinologista pode ajudar nesse processo de adaptação?
Maria Augusta – O endocrinologista é o especialista que trabalha e coordena a equipe multidisciplinar no tratamento e acompanhamento do paciente com diabetes. A superação acontece com a educação continuada e com o apoio da equipe.
Extra – A senhora acredita que campanhas como o “Novembro Diabetes Azul” têm ajudado a mudar o comportamento preventivo da população?
Maria Augusta – A data foi criada em 1991, pela Federação Internacional do Diabetes (IDF) e pela Organização Mundial da Saúde, com objetivo de aumentar a conscientização sobre o diabetes e nesse ano traz o tema “Diabetes e bem-estar no trabalho” e o foco será a promoção de qualidade de vida no ambiente de trabalho.
O dia 14 de novembro é o Dia Mundial do Diabetes. Nesse mesmo dia em 1891, nasceu Frederick Banting, um dos pesquisadores que desenvolveu a insulina e cuja descoberta foi utilizada pela primeira vez em 1921.
Extra – Para encerrar, que mensagem a senhora deixaria a quem acabou de ser diagnosticado e está com medo da doença?
Maria Augusta – O diabetes é uma doença controlável, busque informação, existem muitos mitos que atrapalham o tratamento. Converse com seu médico, ele irá organizar seu tratamento.
