Leucemia: especialista destaca sinais de alerta e o papel do Fevereiro Laranja

Foto: Arquivo Pessoal
A campanha Fevereiro Laranja é um movimento de conscientização voltado à leucemia, criado para ampliar o debate sobre a doença e levar informação de qualidade à população. Ao longo do mês, a iniciativa busca desmistificar ideias ainda muito presentes no imaginário popular, como a associação automática do diagnóstico a casos graves ou sem possibilidade de tratamento.
Mais do que alertar, a campanha reforça a importância do diagnóstico precoce, do acompanhamento médico adequado e da valorização dos avanços da medicina, que hoje permitem melhores resultados, maior qualidade de vida e, em muitos casos, a cura. O Fevereiro Laranja também estimula a solidariedade, ao destacar a relevância da doação de medula óssea e do apoio coletivo aos pacientes e suas famílias.
Além disso, o Fevereiro Laranja cumpre um papel social importante ao incentivar o diálogo aberto sobre a leucemia, reduzindo o medo e o preconceito que ainda cercam a doença. Ao levar informação clara e acessível, a campanha aproxima a população dos serviços de saúde, estimula a atenção aos sinais do corpo e fortalece uma rede de apoio fundamental para quem enfrenta o diagnóstico, mostrando que conhecimento e solidariedade caminham juntos no cuidado com a vida.
O Extra conversou com o dr. Maurício Littieri, hematologista do Hospital Universitário Evangélico Mackenzie (HUEM) e professor da Faculdade Evangélica Mackenzie do Paraná (FEMPAR) (CRM-PR 39.123 | RQE 31.894) que falou sobre os sinais e sintomas de cada tipo da doença, da importância do diagnóstico precoce e como funciona o transplante de medula óssea.
Extra – Para começar, o que é a campanha Fevereiro Laranja e qual a importância dela para a conscientização da população?
Maurício – A campanha Fevereiro Laranja tem como principal objetivo ampliar a conscientização da população sobre a leucemia, um grupo de doenças hematológicas complexas e frequentemente cercadas de desinformação. Diferentemente do que muitas pessoas acreditam, a leucemia não é uma única doença, mas sim um conjunto de diferentes entidades, com características biológicas, apresentações clínicas, tratamentos e prognósticos distintos. Além disso, a campanha é fundamental para desconstruir a ideia historicamente associada ao diagnóstico de leucemia como sinônimo de um desfecho inevitavelmente grave. Os avanços da medicina transformaram significativamente o curso e o resultado de muitos tipos de leucemia, permitindo hoje desde longos períodos de controle da doença até taxas elevadas de cura em diversos cenários.
Extra – A leucemia ainda é cercada de muitos mitos. Quais são os principais equívocos que o senhor costuma ouvir no dia a dia?
Maurício – Um dos equívocos mais comuns é acreditar que todas as leucemias sejam a mesma doença, quando na realidade tratam-se de condições distintas entre si. Cada subtipo possui comportamento próprio, sintomas diferentes, estratégias terapêuticas específicas e prognósticos variados. Outro mito frequente é a ideia de que todo paciente com leucemia necessariamente precisará de quimioterapia intensiva, internações prolongadas e enfrentará efeitos colaterais graves. Hoje isso não representa a realidade. Existem situações em que o tratamento pode ser apenas o simples acompanhamento clínico, terapias orais, esquemas menos intensivos ou tratamentos altamente direcionados. Por fim, ainda persiste a crença de que a leucemia seja uma “sentença de morte”, o que não condiz com os dados atuais. Com os avanços terapêuticos, muitos pacientes apresentam excelente qualidade de vida e sobrevida prolongada, e em vários casos há possibilidade real de cura.
Extra – Quais sinais e sintomas merecem atenção e podem indicar a necessidade de procurar um médico?
Maurício – Os sinais e sintomas da leucemia variam de acordo com o tipo da doença. Para facilitar a compreensão, vamos dividi-las em leucemias crônicas e leucemias agudas. As leucemias crônicas, em geral, têm evolução mais lenta e podem causar sintomas inespecíficos, como cansaço persistente, fraqueza, perda de peso não intencional, palidez, aumento de gânglios linfáticos (ínguas), aumento do baço, alterações no hemograma, como anemia, plaquetas reduzidas ou elevadas e leucócitos baixos ou elevados. Já as leucemias agudas costumam se manifestar de forma mais súbita e intensa, com infecções de repetição, febre persistente, sangramentos espontâneos, palidez acentuada, cansaço intenso, sudorese noturna e perda de peso. Diante desses sinais, a avaliação médica deve ser realizada o quanto antes.
Extra – O diagnóstico precoce realmente faz diferença no tratamento da leucemia? De que forma ele impacta as chances de cura?
Maurício – Sim, o diagnóstico precoce é um dos fatores mais importantes no tratamento da leucemia. Identificar a doença em fases iniciais permite uma melhor organização terapêutica, início oportuno do tratamento adequado e redução do risco de complicações graves. De forma geral, pacientes diagnosticados precocemente apresentam melhores taxas de resposta ao tratamento, menor risco de desfechos desfavoráveis e, em muitos casos, maiores chances de cura ou controle prolongado da doença, quando comparados àqueles diagnosticados em estágios mais avançados.
Extra – Quem pode ser doador de medula óssea e como funciona, na prática, esse processo de doação no Brasil?
Maurício – A seleção de um doador de medula óssea é um processo criterioso, baseado principalmente na compatibilidade genética. O doador pode ser aparentado ou não aparentado. Entre os aparentados, os irmãos têm maior chance de compatibilidade total. Para doadores não aparentados, no Brasil, é necessário estar cadastrado no Registro Nacional de Doadores de Medula Óssea (REDOME). Os critérios básicos incluem ter entre 18 e 35 anos no momento do cadastro, estar em boas condições de saúde e não possuir doenças que impeçam a doação. A compatibilidade é avaliada por testes genéticos específicos, chamados HLA.
Extra – Muitas pessoas têm medo da doação. Esse receio é justificado ou ainda falta informação sobre o procedimento?
Maurício – Na maioria das vezes, esse receio está relacionado à falta de informação. Atualmente, em grande parte das doações, não é necessário realizar a coleta direta da medula óssea por punção de medula óssea. O método mais utilizado é a coleta de células-tronco do sangue periférico, semelhante a uma doação de sangue ou plaquetas. O doador recebe previamente uma medicação que estimula a liberação dessas células na circulação, e a coleta é feita por um equipamento que filtra as células de interesse, sem necessidade de cirurgia ou anestesia. Trata-se de um procedimento seguro, monitorado e com riscos mínimos ao doador.
Extra – Como campanhas como o Fevereiro Laranja ajudam a aumentar o número de doadores e salvar vidas?
Maurício – Campanhas como o Fevereiro Laranja são fundamentais porque dão visibilidade ao tema, combatem mitos e disseminam informação de qualidade. Ao esclarecer como funciona a doação, quem pode doar e o impacto direto desse gesto na vida dos pacientes, essas iniciativas estimulam o cadastramento de novos doadores e ampliam significativamente as chances de encontrar compatibilidade para quem aguarda um transplante.
Extra – Que papel a família e a comunidade exercem no apoio ao paciente diagnosticado com leucemia?
Maurício – A família e a comunidade exercem um papel absolutamente central no cuidado do paciente com leucemia. Trata-se de uma doença que ainda carrega um forte estigma emocional e social. O suporte familiar é fundamental para adesão ao tratamento, enfrentamento dos efeitos colaterais, manutenção do bem-estar emocional e superação das dificuldades ao longo de um processo que pode ser longo e desafiador. O apoio da comunidade também contribui fortalecer a rede de cuidado.
Extra – Existem avanços recentes nos tratamentos que trazem mais esperança aos pacientes?
Maurício – Sem dúvida. A hematologia vive um momento de grande transformação. Nos últimos anos, houve um avanço expressivo no desenvolvimento de terapias-alvo, imunoterapias, anticorpos monoclonais, terapias celulares e tratamentos personalizados baseados no perfil genético da doença. Essas inovações têm permitido tratamentos mais eficazes e menos tóxicos, trazendo novas perspectivas de controle e cura para muitos pacientes que, no passado, tinham opções terapêuticas limitadas.
Extra – Que mensagem o senhor deixaria para quem está em dúvida sobre se cadastrar como doador de medula óssea?
Maurício – É natural ter dúvidas ou receios ao pensar em se cadastrar como doador de medula óssea. Muitas pessoas imaginam procedimentos complexos ou dolorosos, mas a realidade hoje é muito diferente. O cadastro é simples e começa apenas com uma pequena amostra de sangue ou saliva. Caso haja compatibilidade, todo o processo é realizado de forma segura, acompanhada e com absoluto respeito ao doador. Um único gesto pode representar a única chance de cura para alguém que aguarda um transplante. Mensagem: “Você pode ser a cura de alguém”.
