Dezembro Vermelho: especialista destaca importância da prevenção e do combate ao HIV e às ISTs

 Dezembro Vermelho: especialista destaca importância da prevenção e do combate ao HIV e às ISTs

A Campanha Dezembro Vermelho marca o mês de conscientização e prevenção ao HIV/Aids e outras infecções sexualmente transmissíveis. Em todo o país, ações educativas, testes rápidos e orientações de saúde ganham destaque para reforçar a importância do diagnóstico precoce e do cuidado contínuo.

Em diversas regiões, a mobilização tem sido essencial para aproximar a população dos serviços de saúde e combater estigmas ainda associados ao tema. Profissionais destacam que o acesso à informação de qualidade e ao diagnóstico rápido é fundamental para reduzir novos casos e garantir acompanhamento adequado às pessoas que vivem com o vírus.

Com foco na prevenção, no acolhimento e na promoção da saúde, o Dezembro Vermelho busca ampliar o diálogo com jovens, adultos e grupos vulneráveis, fortalecendo uma rede de atenção que vai muito além do tratamento médico, é uma campanha de humanidade, respeito e conscientização.

O Extra conversou com a dra. Susanne Edinger, infectologista do Hospital Evangélico Mackenzie (CRM: 28.897-PR) que falou do panorama atual da infecção pelo HIV, do tratamento da doença no sistema público de saúde e dos desafios e da importância da abordagem mais abertamente do HIV/Aids na sociedade.

Extra – Doutora, qual é o panorama atual da infecção pelo HIV no Brasil? Ainda podemos considerar o HIV/Aids uma epidemia preocupante, levando em conta que ser portador do vírus é diferente de desenvolver a doença (Aids)?

Susanne – O último boletim epidemiológico do Ministério de Saúde publicado em dezembro/2024 é o último dado oficial que temos em relação a situação das infecções no nosso país. Segundo o documento, de 2007 a 2024 foram notificados 541.759 casos, com predomínio de 70% dos casos no gênero masculino. Há também uma interessante análise na relação entre os sexos que passou 14 homens para cada 10 mulheres infectadas para 27 homens para cada 10 mulheres em 2023. Através dessa informação podemos considerar que sim, ainda é uma epidemia preocupante. Se falarmos de AIDS desde a década de 80 o número de casos no Brasil soma 1.165.599 com uma média de 36.000 casos/ano nos últimos 5 anos.

Extra – O número de novos casos tem se mantido estável ou há tendência de aumento em determinados grupos?

Susanne – O número de casos teve aumento nos últimos anos. De 2023 para 2024, houve um acréscimo de 4,5% no número total de casos com maior prevalência entre pessoas autodeclaradas negras e no grupo de homens que

fazem sexo com homens (HSH). No entanto, na distribuição por faixa etária, os HSH representam a faixa dos 20-39 anos, pois acima dos 40 anos a incidência maior foi em heterossexuais. Entre gestantes também houve um aumento na última década. Ainda entre as mulheres, um aumento significativo de novos casos na faixa etária maior de 50 anos.

É fundamental esclarecer que o número de óbitos pela doença diminuiu consideravelmente chegando a um coeficiente padronizado de mortalidade por AIDS que passou de 5,7 óbitos em 2013 para 3,9 óbitos por 100.000 habitantes em 2023.

Extra – Quais fatores explicam a persistência da transmissão do HIV, mesmo com tantos avanços na medicina?

Susanne – Falha de testagem e acesso à informação. O acesso ao teste diagnóstico precisa ser ampliado e a busca ativa de casos confirmados a fim de esclarecer o diagnóstico e oferecer o tratamento talvez possam minimizar a transmissão. Ainda há muita desinformação quando saímos dos grandes centros.

Extra – Como o sistema público de saúde tem lidado com a prevenção, o diagnóstico e o tratamento atualmente?

Susanne – No Brasil, o sistema público de saúde disponibiliza testes diagnósticos e trabalha amplamente em campanhas de prevenção a ISTs através das redes sociais e mídias impressa e digital. Oferece o tratamento antirretroviral gratuitamente diferente de outros países e oferece estratégias medicamentosas e não medicamentosas de prevenção, como a Prep, PEP, preservativos masculino e feminino de forma ilimitada além de programas.

Extra – Quais estratégias de prevenção têm se mostrado mais eficazes no controle da transmissão do HIV?

Susanne – Educação, oferta de preservativos gratuitos, facilidade de acesso a profilaxia pré-exposição nos grupos de maior risco, liberdade de expressão.

Extra – A PrEP (profilaxia pré-exposição) e a PEP (pós-exposição) estão sendo utilizadas de forma adequada pela população?

Susanne – A população que tem acesso a essas estratégias sim, mas precisamos ampliar a oferta de PreP e PEP.

Extra – Quais foram os principais avanços no tratamento antirretroviral nos últimos anos?

Susanne – Muitos. Felizmente grandes são os ganhos. As atuais terapias com antirretrovirais / tratamentos de alta potência para detecção da carga viral, as políticas de controle e a facilidade de acesso aos testes diagnósticos nas populações mais vulneráveis.

Extra – Ainda há desafios quanto à adesão ao tratamento e à desinformação sobre o uso de preservativos?

Susanne – Quanto a adesão, sim, muitos desafios. A estratégia de cuidado precisa melhorar, não apenas o acesso, mas a horizontalidade no acompanhamento. No âmbito Sistema Único de Saúde (SUS) a mudança constante de profissionais assistentes pode dificultar isso, mas não é só isso, vulnerabilidade social também é e a barreira de acesso à seguimento psicológico também.

Extra – Mesmo com o acesso à informação, o preconceito contra pessoas que vivem com HIV ainda é uma realidade?

Susanne – Infelizmente.

Extra – De que forma o estigma interfere no diagnóstico precoce e no início do tratamento?

Susanne – As pessoas por medo, receio ou vergonha atrasam o diagnóstico e demoram para buscar assistência médica especializada. São os inúmeros os casos de pessoas que testam e negam o resultado do teste, não vão buscar. A busca ativa de casos assim e o acompanhamento psicológico poderiam minimizar isso.

Extra – Acredita que ainda falta falar mais abertamente sobre o HIV/Aids na sociedade?

Susanne – SEMPRE. Fechar os olhos para determinadas doenças só estimula mais desinformação. É fundamental não encarar o assunto como um tabu e sim como informação. Esclarecer a respeito de práticas sexuais de risco e formas de prevenção de infecções sexualmente transmissíveis. A cultura brasileira precisa disso. Artistas trazem letras de músicas e coreografias que sexualizam a juventude desde muito cedo. Influencers que “virilizam” e atingem milhões de visualizações nas redes sociais podem ser ótimos aliados para atingir esse público. No entanto, não podemos deixar de lembrar que a população envelhece com mais saúde e mais qualidade de vida e essas gerações de “terceira idade” por vezes desconhecem novas formas de prevenção e guardam informações antiquadas sobre o assunto HIV.

Extra – Existem perspectivas reais de cura ou de vacinas eficazes contra o HIV?

Susanne – O vírus do HIV cria reservatórios latentes em células e tecidos o que torna difícil a eliminação completa dele. A cura já existe, o que não existe é a cura para todos que vivem com o vírus. São 8 os pacientes curados no mundo, mas precisaram de um transplante de medula para curar. Existem estratégias de terapias combinadas que tem sido usadas em estudos clínicos. Colegas da pesquisa clínica da Escola Paulista de Medicina em estudos de colaboração internacional tem buscado caminhos para a cura com algum sucesso por um período relevante, 78 semanas, mas ainda sem documentação de uma remissão durável. Então precisamos entender que ainda que tenhamos a estratégia levará um tempo para que a cura seja para todos.

Extra – Como os avanços científicos recentes têm impactado a qualidade de vida dos pacientes soropositivos?

Susanne – Os portadores do vírus hoje vivem mais e melhor. A medicação oferecida para tratamento já não é mais o antigo coquetel, hoje a terapia padrão/inicial é composta de apenas de dois comprimidos. Manter a carga viral indetectável é garantia de uma vida semelhante a vida de uma pessoa não

portadora do vírus. A cabeça do paciente e a aceitação do diagnóstico são o que mais pesa nesse processo. 

As estratégias de prevenção melhoraram, a PreP.

Extra – Quais são as prioridades da comunidade médica para os próximos anos no combate ao HIV/Aids?

Susanne – Prioridade é expandir estratégias de prevenção e diagnóstico, garantindo o diagnóstico precoce. Instituir tratamento e detectar a carga viral da maior parte dos portadores do vírus. Acesso à informação para minimizar efeitos colaterais e interações medicamentosas e estudar para chegar a estratégias de cura.

Extra – Que mensagem deixaria à população sobre prevenção, testagem e preconceito?

Susanne – É fundamental reconhecermos a importância de políticas públicas integradas que garantam à população acesso à informação, promoção de direitos básicos como educação, saneamento e emprego, ações de prevenção, diagnóstico precoce e políticas de acesso facilitado ao tratamento que é gratuito. Ações que minimizem a desigualdade social e ofereçam informação de qualidade desde a educação primária para combater equívocos que estimulem a discriminação desses indivíduos. Oferecer aos profissionais de saúde de todos os níveis de atenção à saúde educação continuada e orientação para testagem regular dos pacientes em todas as especialidades médicas.

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