Diagnóstico precoce salva vidas: médica alerta para importância do Outubro Rosa contra o câncer de mama

Foto: Arquivo Pessoal
Outubro é o mês da campanha Outubro Rosa, movimento internacional voltado à conscientização sobre o câncer de mama. A ação busca orientar a população sobre a importância dos exames preventivos e do diagnóstico precoce, que podem reduzir a mortalidade causada pela doença.
Segundo o Instituto Nacional de Câncer (INCA), a estimativa é que surjam cerca de 73.610 novos casos de câncer de mama em 2025. Esse é o tipo mais frequente entre as mulheres brasileiras. A detecção em estágios iniciais aumenta significativamente as chances de cura e possibilita tratamentos menos invasivos.
A campanha também reforça a necessidade de políticas públicas que ampliem o acesso a mamografias e demais exames de rastreamento, especialmente nas regiões onde a cobertura ainda é limitada. Além disso, promove ações educativas, palestras e atividades em todo o país para levar informação de qualidade à população.
Com o símbolo do laço rosa, o movimento ultrapassa os limites da área da saúde e envolve escolas, empresas, entidades sociais e a comunidade em geral. O objetivo é unir esforços para combater o câncer de mama, incentivar hábitos saudáveis e fortalecer a rede de apoio às mulheres em tratamento.
O Extra conversou com dra. Fernanda Ronchi, oncologista clínica e professora da Faculdade Evangélica Mackenzie do Paraná (FEMPAR) (CRM: 39607-PR) que falou da importância da abordagem do tema todos os anos, os principais exames de prevenção e os desafios enfrentados pelas pacientes diagnosticadas com a doença.
Extra – Por que ainda é tão importante falar sobre o tema todos os anos?
Fernanda – O rastreio deve ser feito de maneira anual, em toda população feminina a partir dos 40 anos, mesmo na ausência de alterações nas mamas. Por isto, importante a campanha anual para lembrar a todas de cuidarem da sua saúde.
Extra – Quais são os principais exames de prevenção e com que frequência devem ser feitos?
Fernanda – A mamografia, associada ao exame médico anual, é, indiscutivelmente o melhor método para detecção precoce de tumores na mama. Deve ser feita para todas as mulheres a partir dos 40 anos, como forma de rastreio, ou seja, mesmo que não seja visível ou palpável alterações na mama.
Extra – O autoexame ainda é recomendado como prática de rotina?
Fernanda – O autoexame não é considerado um método de rastreio, pois a paciente normalmente percebe a lesão em tamanho já maior. Portanto, não deve substituir consultas e mamografia de rotina. No entanto, sempre que você perceber alguma nodulação nova ou estranha na mama, deve consultar um médico especializado.
Extra – Quais sinais e sintomas as mulheres devem ficar mais atentas?
Fernanda – Nódulos novos na mama, retrações ou assimetrias. Inchaços ou vermelhidão, saída de secreção com sangue ou tipo “água”. Feridas que não cicatrizam, especialmente no mamilo. Dor na mama pode ocorrer também. Não é porque “dói”, que não pode ser câncer.
Extra – Quais os principais desafios enfrentados pelas mulheres que recebem o diagnóstico?
Fernanda – Existem desafios de ordem prática, como financeiro e trabalhista, e existem desafios no campo psicológico e emocional.
Passar por um tratamento de câncer, seja no SUS, seja no sistema de saúde suplementar, traz muitas outras despesas financeiras além do tratamento em si. Medicamentos para uso em casa, custo com transporte, dias de trabalho perdido, perda de salário com afastamento pelo INSS.
Do ponto de vista psicológico, digo sempre que ninguém nunca está preparado para isto. Nós mulheres somos normalmente muito exigentes conosco. O diagnóstico de câncer, as propostas de tratamento com quimioterapia, cirurgia, trazem consigo a necessidade de processar lutos. É necessário que estas emoções sejam vividas e processadas, preferencialmente com rede de apoio: negação, raiva, barganha, depressão e aceitação.
Infelizmente não é incomum as mulheres perderem sua rede de apoio após o diagnóstico, por abandono do parceiro.
Extra – Qual a importância do apoio familiar e psicológico durante o tratamento?
Fernanda – Como estava explicando, são muitos os desafios que a paciente passa ao receber o diagnóstico de câncer. Nós mulheres sempre queremos ser fortes, mas este é o momento para deixar-se cuidar pela sua rede de apoio. Deixar sentir raiva, revolta, tristeza. Permitir-se não estar disposta nos dias da quimioterapia. Dividir as responsabilidades de casa com o/a parceiro/a ou rede de apoio, e ter apoio financeiro neste período é essencial.
Extra – Você poderia compartilhar algum caso inspirador de superação que acompanhou?
Fernanda – Atendo incontáveis mulheres com histórias difíceis. As que mais me marcaram (e infelizmente não são poucas), são as que foram abandonadas pelos parceiros, muitas vezes com filhos pequenos. Mas cada uma tem suas batalhas pessoais a serem vencidas. Lutas que acompanhamos no nosso dia a dia, e que nos motivam a continuar nosso trabalho com acolhimento e empatia. Trabalhamos em equipe multidisciplinar e temos apoio principalmente da nossa assistente social e psicóloga.
Extra – Que mensagem deixaria para mulheres que ainda têm medo de procurar um médico?
Fernanda – O diagnóstico de câncer tradicionalmente traz medos e receios, faz parte da cultura da nossa sociedade, e certamente não é um medo em vão. Mas o diagnóstico em estádio inicial tem até 90% de chance de cura. Além disto, tumores menores normalmente precisam de “menos” tratamento, ou de protocolos menos agressivos e mais curtos. Então certamente, apesar de todo o medo em torno desta doença, vale a pena cuidar e diagnosticar para tratar o quanto antes.
Extra – Como a comunidade pode apoiar pacientes e instituições durante essa campanha?
Fernanda – Além de lembrar as mulheres de fazerem os exames e consultas de rotina, devemos viabilizar para que isto seja possível. Apoio no trabalho, para uma falta para a realização de exames, apoio com os filhos para que esta mulher possa ir ao médico. É nossa responsabilidade, além de cobrar, tornar isto possível sem que seja visto como um “fardo”.
Extra – Quais avanços na medicina trazem esperança para os próximos anos?
Fernanda – Os avanços foram enormes nos últimos anos, para os 3 subtipos de câncer de mama.
Para os tumores luminais (hormonais), tivemos a chegada dos inibidores de ciclina tanto no cenário de doença localizada, quanto no cenário metastático. São medicamentos orais que auxiliam no bloqueio na multiplicação celular, atuando em conjunto com a hormonioterapia.
Para tumores HER –2, chegaram muitas opções de terapia-alvo novas.
E por último, no cenário de doença triplo-negativa, tivemos bons resultados da associação da imunoterapia com a quimioterapia.
Temos também os chamados anticorpos droga-conjugada, que estão disponíveis para todos os subtipos de tumor, que são anticorpos que “entregam “a quimioterapia com mais eficiência nas células do câncer.
Infelizmente, todos estes avanços que temos na saúde suplementar demoram muito para chegar no SUS.
Extra – Que ações locais poderiam fortalecer ainda mais a prevenção e o cuidado?
Fernanda – Acredito que exames de rotina poderiam ser incorporados na prática das grandes empresas, como agendamentos em meses de campanha, escalas, para garantir que todas as funcionárias tenham acesso. Além das campanhas públicas e das ações já implementadas pela rede básica do SUS.
Extra – Qual é o maior recado que o Outubro Rosa deixa para além do mês de outubro?
Fernanda – Devemos estimular e lembrar as mulheres que devem cuidar da própria saúde. Nós mulheres priorizamos sempre o cuidado do próximo, da família, e deixamos o nosso em segundo plano. Como em voos, coloque a sua máscara antes de auxiliar o próximo, com a nossa saúde deve ser a mesma coisa.
Precisamos nos cuidar, para estar bem para cuidar dos outros. E isto deve ser um cuidado incorporado na rotina.
Prática de atividades físicas regularmente: aeróbica, 30 min 5x semana ou 1 hora 3x semana. Ajuda no controle de peso e diminui o risco cardiovascular, além de diminuir em até 60% o risco de câncer (mama, endométrio, cólon)
Alimentação saudável: dieta balanceada e colorida, rica em vegetais, frutas e grãos. Evitar embutidos, carne vermelha em excesso, ultraprocessados e refinados, e bebidas adocicadas.
Evitar bebida e cigarro: evita vários tipos de câncer além do câncer de mama.
Manter consultas de rotina anuais com coleta de exame preventivo de colo de útero, e mamografia.
